quinta-feira, 17 de abril de 2008

BONDES

Recebi de várias fontes fotografias de bondes antigos de Porto Alegre o que despertou uma saudade dos amarelinhos. Os bondes habitaram minhas paisagens de menino e de adolescente, pois trafegaram entre nós até 1969, quando o último rodou pelas ruas da Mui Leal e Valerosa (sic).
O nome teria surgido em 1879 quando a passagem custava 200 reis, e como não existiam moedas deste pequeno valor a empresa denominada CARRIL DE FERRO resolveu emitir bilhetes em cinco unidades totalizando mil reis. Os bilhetes eram verdadeiras obras de arte e a população logo os apelidou de Bonds (Bônus ou ação em inglês). A empresa mesmo já denominava os seus tíquetes de bonds. O nome pegou, e logo a seguir começaram a chamar os elétricos de bondes, numa forma aportuguesa dos bonds ingleses.
Existiram várias linhas de bondes em Porto Alegre, entre elas o Duque e Teresópolis pedreira, que utilizavam pequenos bondes de quatro rodas, que a irreverência popular denominava de gaiolas. Existiam linhas para Teresópolis, Glória, Partenon, Menino Deus, Floresta e aí por diante.
A forma de entrar no centro determinava um tipo de linha via Gasômetro, via José do Patrocínio e via João Pessoa.
A dificuldade dos bondes subir a Borges de Medeiros fez surgir o primeiro viaduto de Porto Alegre, o Otávio Rocha, também conhecido como viaduto da Borges, e denominado ainda pelos humoristas locais, entre os quais o insubstituível Carlos Nobre o “Viadeiro Borges de Meduto”.
Como vou descrever um bonde? Bem, (na versão inglesa well) o bonde era um veículo elétrico, ou seja, ligado a eletricidade por uma barra de ferro com uma roldana que corria por um fio. Andava sobre trilhos, tal qual um trem. Não fazia curvas de moto próprio, ou seja, quando se pretendia que fizesse um desvio, se trocava trilho, ou seja, alguém descia, e com uma alavanca movia o trilho na outra direção, de tal sorte que entrasse noutra linha, em outra direção. Assim, quando o bonde que ia para Teresópolis, chegava ao entroncamento com o bonde que ia para o Partenon, o motorneiro ou algum outro funcionário descia e fazia a manobra com os trilhos. Não raro, o motorneiro não se dava conta de que o trilho estava virado para o lado oposto a sua direção e avançava o trem sobre a linha errada. Maravilha! Era uma gritaria só dentro do bonde. O motorneiro tinha um trabalhão danado para voltar o bonde, e corrigir a manobra equivocada.
Os primeiros bondes que andei não tinham portas abertas, ou seja não tinham portas fechadas, era tudo aberto mesmo. Do lado em que corria o outro bonde, era passada uma corrente, para evitar que as pessoas saíssem por aquele lado e fossem atropeladas pelo outro elétrico.
Os bondes podiam ser conduzidos por qualquer das pontas, assim quando chegava ao fim da linha, o motorneiro se mudava para o outro lado, trocando a barra de ligação com os fios e continuava tranquilamente. Nesta mudança ele levava o seu banco e a alavanca do freio. A alavanca de aceleração era fixa. A roda grande que se via na cabine não tinha nada de direção, era somente para baixar o limpa- trilhos em situações emergenciais.
A buzina do bonde imitava o som produzido por alguém que apita ou assovia no bocal de uma garrafa.
Os funcionários da Carris (assim se chamava a nossa empresa de bondes) usavam um uniforme cáqui e um quepe, onde estava escrita a sua função.
Você pensa que o chamado condutor era o motorista ou piloto do bonde? Enganou-se o condutor era o cobrador. O motorista era chamado de motorneiro. Tinha também o fiscal, o inspetor, o chefe de linha etc...
Vivíamos longe da época Lula Lá. Assim sendo, os tempos eram de honestidade, o cobrador fazia a cobrança dos passageiros sem lhes dar ou exigir qualquer comprovante. Em suma, pagava quem queria, e todo mundo pagava. Exceto a gurizada que ia pendurada no estripo do bonde, e quando chegava o cobrador saltavam para pegar outro carro. O faziam mais por farra do que por safadeza, pois os tempos eram outros.
O condutor cobrava e marcava num relógio com alavancas, ou seja puxava a dita alavanca tantas vezes quantos fossem os passageiros cobrados. O fiscal contava as pessoas e fazia as devidas correções, no tal relógio contador, era a forma de fiscalizar o serviço do condutor ( Lembre-se do cobrador).
O fiscal carregava um papel verde onde ele anotava o número de passageiros, e outras anotações que até hoje não sei quais eram, ao final ele tirava alguma coisa parecida com um carimbo em forma de caneta e “plá” carimbava a tal folha.
E, quando faltava eletricidade? Azar os bondes paravam e era aquela gritaria, até que a luz voltava.
Todo o povo somente andava de bonde, os poucos ônibus, na verdade camionetas, eram muito caros. Táxi então somente para levar alguém para o Pronto Socorro, ou conduzir alguém cheio de malas para o aeroporto, ferroviária ou rodoviária.
Os bondes eram lentos, mas algumas vezes conseguiam atropelar alguém, o que muitas vezes resultava em morte do atropelado. Era uma coisa muito feia de se ver. Uma vez fui ver um sujeito sob as rodas do bonde, e me arrependo até hoje de ter visto o que vi.
O bonde servia também para piadas. Claro que anedotas sem qualquer malícia como são as de hoje.
Não vou resistir e contar uma para vocês. A gente se preparava todo com uma cara muito séria e dizia:
- Hoje pela manhã o bonde Teresópolis pegou um homem na frente do Castelo.
A vítima inocente perguntava:
- E, aí ele morreu?
Não ele desembarcou no centro!
Outra era a que um bonde teria passado por cima de um carro na Borges.
-E, aí, machucou alguém?
-Não foi por cima do viaduto!
Uma vez um bonde pegou fogo e queimou todo, machucando algumas pessoas. Bastou: toda a cidade ficou traumatizada.
Um dia eu e meu saudoso padrinho Paulino estávamos num bonde no fim da linha de Teresópolis, e deu um estouro dentro do bonde. Eu não precisei trocar as pernas para chegar à porta a turba me levou na marra. Em poucos segundo, o bonde estava vazio.
Os bondes tinham anúncios colocados dentro da cabina. O mais famoso anúncio era mais ou menos assim:
“Veja ilustre passageiro, o belo tipo faceiro que você tem ao seu lado, e no entretanto acredite, quase morreu de bronquite, salvou-o RHUM CREOSOTADO”.
Os bancos do bonde eram de madeira e ferro, ou seja nada de estofamento. O encosto podia ser mudado de lado, daí os passageiros, mesmo o banco mudando de lado, podiam continuar sentados para o lado do deslocamento. No fim da linha o condutor vinha virando todos o bancos: Plác...Plác.... Plác...
Algumas poucas cidades brasileiras ainda têm bondes circulando, entre elas o Rio de Janeiro com a tradicional linha Santa Teresa.
Muitas linhas de bonde na Europa, e algumas nos EUA, entre elas a mais famosa que é a de São Francisco.
A minha primeira ida a Europa eu entrei por Milão, Itália, e a primeira visão que eu identifiquei como típica da Europa foi a Praça Duomo onde circulam bondes muito parecidos com os nossos, só que um pouco mais finos (magrinhos), ao lado de trens modernos.
Os bondes têm uma grande vantagem que é a não queima de combustíveis fósseis. As desvantagens são a pouca velocidade, a falta de maneabilidade, a dependência do trilho e do fio, e o barulho.
Não tem mais sentido hoje, servindo somente para embalar nossas recordações de infância e juventude.

Um comentário:

Selso disse...

Em tempos obtusos, nada como recordar das coisas de nossa infância; muito boas tuas colocações sobre o bonde. Lembro de algumas situações que vivenciei, como o primeiro tombo no primeiro pulo. A ¨Padaria¨
ficou bem dolorida...
Outra vêz, ao invés de pegar o Teresópolis, em frente ao Julinho, subi no Glória, só tendo notado quando estava em plena Oscar ¨Lomba do Cemitério ¨Pereira. Assim, literalmente peguei o bonde errado! A saída fora dos trilhos, na Carlos Barbosa, também não sái da minha memória...foi assustador...trepidava tudo!
Finalmente, lembro um dia de temporal e muita chuva, nada de vir o bonde que me levaria do Julinho até a casa; passadas duas horas, água que Deus mandava, a solução foi pegar o bonde até o Centro, e de lá voltar. roxo de fome! Grande abraço!

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